quarta-feira, 21 de julho de 2021

Entrevista com Emília Viotti da Costa


Emília Viotti da Costa

Para historiadora, Brasil enfrenta o paradoxo de ser um país que reconhece o papel do escravo na construção da sociedade, mas que discrimina seus descendentes"

(3/4/2000)

Brancos e negros inventaram uma África, diz Viotti

Nome: Emília Viotti da Costa

Cargo: professora emérita de História da América Latina da Universidade de Yale (EUA), e professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo)

Livros: "Da Senzala à Colônia" (Unesp), "Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue" (Companhia das Letras), entre outros








SYLVIA COLOMBO

Editora interina de Especiais

A historiadora Emília Viotti da Costa considera que, no Brasil, hoje, "invocar a tradição e a cultura tornou-se uma forma de resistência" diante do impacto da globalização. Para ela, as manifestações contra a comemoração dos 500 anos do Descobrimento "obrigam todos os brasileiros a repensar a história do passado e do presente de maneira a torná-la mais inclusiva.

" Estudiosa do tema da escravidão, Emília Viotti lecionou no Departamento de História da Universidade de São Paulo entre 64 e 69, quando foi aposentada pelo AI-5 (Ato Institucional do governo militar que endureceu o regime). Na ocasião, seguiu para os Estados Unidos, onde é professora emérita de história da América Latina na Universidade de Yale (EUA). Em 1999, Emília Viotti recebeu o título de professora emérita na USP.

É autora do livro "Da Senzala à Colônia", importante estudo sobre a transição do trabalho escravo para o livre na região cafeeira de São Paulo, e "Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue", sobre a rebelião dos escravos em Demerara, na Guiana Inglesa, no século 19 -em que analisa o fato histórico enfocando tanto a micro como a macro-história.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista que Emília Viotti concedeu à Folha, por e-mail, de sua casa, nos EUA.

Folha - Recentemente, a sociedade portuguesa mobilizou-se pela causa de Timor Leste, tem acolhido relativamente bem a entrada de refugiados políticos de Angola, e a comemoração dos 500 anos do Brasil recebe a atenção dos órgãos responsáveis pela cultura naquele país. A sra. acredita que Portugal vê a efeméride dos Descobrimentos como oportunidade para se redimir dos danos causados pela colonização?

Emília Viotti - As relações entre Portugal e suas ex-colônias mudaram desde a queda de Salazar (1889-1970). Nada mais natural que tenha havido uma revisão do período colonial. Hoje, em toda a Europa, as relações entre as ex-metrópoles e colônias são distintas e há interesse de ambos os lados na construção de novos laços.

A criação do Mercado Comum Europeu tem exercido uma poderosa atração entre os povos das ex-colônias, provocando uma grande imigração com destino às antigas metrópoles.

Portugal oferece ao Brasil uma porta para a Comunidade Européia e o Brasil representa para Portugal um grande mercado. Isso leva, de forma inevitável, a um processo de reexame do passado. Se esse reexame levará à "conscientização histórica" de Portugal em relação aos danos causados pela colonização é o que veremos. Agora, a tendência é a reabilitação da idéia da comunidade de língua portuguesa, defendida no passado por Gilberto Freyre.

Folha - Como se dá, hoje, o processo de miscigenação e aculturamento dos povos negros na América Latina?

Viotti - Na América Latina, os negros foram introduzidos como produto da escravidão: Colômbia, Brasil, Cuba, Peru, México ou Argentina. Isso deixou marcas profundas nessas sociedades. Um dos seus legados mais sinistros foi o preconceito racial contra o negro, que até hoje persiste e dificulta sua integração na sociedade. As crises econômicas que afetaram o Brasil no século 20 e a política elitista, marcada frequentemente por um racismo disfarçado, contribuíram para que se mantivessem as desigualdades e alimentaram a discriminação.

Hoje, enfrentamos o paradoxo de um país que reconhece de várias maneiras a importância do negro na constituição da sua cultura e sociedade, mas que continua a discriminá-lo.

Folha - Como se mantém a identidade cultural africana, sobrevivente da diáspora causada pela escravidão, num cenário de globalização?

Viotti - O que se tem visto por toda parte é o que Hobsbawn chamou de "a invenção da tradição". Os povos africanos de origens diversas, que pertenceram no passado a grupos étnicos distintos, com culturas e religiões diversas, foram transportados para a América, onde foram transformados em escravos. No Novo Mundo, eles criaram aos poucos uma nova identidade, que transcendeu muitas vezes as diferenças étnicas que originalmente os dividiam.

Brancos e negros, cada um à sua maneira e por motivos diversos, inventaram uma África. Hoje, com as novas possibilidades oferecidas pela cultura de massa e pela mídia, multiplicaram-se os grupos que invocam a tradição africana. Invocar a tradição e a cultura tornou-se uma forma de resistência. Ultimamente se tem visto, por toda parte, um renovado interesse pela cultura.

Por toda parte, os grupos que se sentiram excluídos tentam criar um espaço próprio. Às tendências globalizadoras, que supostamente pretendem uniformizar a experiência humana, eles opõem suas "tradições". Dessa forma, globalização e multiculturalismo não se excluem. São os dois lados de uma mesma moeda.

Folha - Como a sra. vê as manifestações que repudiam a idéia de comemorar os 500 anos do Descobrimento do Brasil?

Viotti - Nos últimos anos, a indústria cultural tem promovido inúmeros eventos. Tudo é motivo para comemorações, congressos, publicação de livros. Os historiadores são os primeiros a ser chamados a dar sua contribuição.

Portanto, é de se esperar que os 500 anos da "descoberta do Brasil" sejam comemorados da mesma maneira como o foram a Abolição, a Proclamação da República e outras datas que têm sido consagradas como importantes marcos da história nacional.

É muito significativo que vários grupos estejam se mobilizando para contestar a história oficial, que tem, quando muito, adotado uma atitude condescendente para com negros, índios, mulheres e outros grupos que se sentem excluídos dessa versão. Sua mobilização obriga todos os brasileiros a repensar a história do passado e do presente de maneira a torná-la mais inclusiva.

Folha - A América Latina teve, guardadas as especificidades regionais, um passado colonial comum e ciclos políticos semelhantes: liberalismo, populismo, ditaduras militares. A sra. acredita que esse destino comum é uma tendência que continuará existindo?

Viotti - De fato existem certos paralelismos interessantes na história dos países da América Latina, mas há também importantes diferenças. Isso significa que, apesar de terem partilhado uma posição semelhante no mercado internacional, suas peculiaridades ecológicas, demográficas, seus diferentes recursos naturais e graus de desenvolvimento, suas várias culturas imprimiram um curso diverso a sua história política.

Como já tive ocasião de afirmar várias vezes, os agentes históricos não são apenas produtos de uma história que já está predeterminada, mas são agentes de uma história que, ao mesmo tempo, os produz e é produzida por eles.

Se não fosse assim, como seria possível explicar a existência até hoje de uma Cuba socialista? Como explicar revoluções que abalaram a América Central nos anos 70/80 na Nicarágua, El Salvador e Guatemala, depois da onda de repressão que desabou sobre a América do Sul nos anos 60/70?

Uma abordagem economicista e mecanicista leva a políticas equivocadas. Quando se imagina que a história já está predeterminada, perdem-se de vista os caminhos possíveis. Isso leva a um conformismo e a uma passividade perigosa. Tão perigosa quanto a visão voluntarista oposta, que privilegia os agentes históricos e ignora as forças que impõem limitações a sua vontade de ação.

A idéia de que a história da América Latina passou por estágios sucessivos -e que agora se encaminha para a social-democracia- tem sido corretamente contestada pelos historiadores, que apontam para as recorrências históricas de ditaduras militares e civis, de táticas populistas ou ainda de práticas discursivas liberais.

https://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/entre_10.htm

Historia das Crianças no Brasil

Resumo

Resultado de um cruzamento de olhares sobre o tema abrangente da infância na história brasileira, reúne historiadores, sociólogos e educadores sensíveis à consciência que vem aflorando sobre a condição das crianças e, sobretudo, atentos ao legado do passado na situação atual. Tais pesquisadores empenham-se em transformar as crianças em sujeitos históricos neste livro que trata dos pequenos viajantes nas embarcações do século XVI, dos curumins catequizados pelos jesuítas, das crianças escravas, da infância de ricos e pobres, dos garotos participantes da guerra do Paraguai, dos pequenos operários, dos menores criminosos dos primórdios da industrialização, de doces memórias da infância de brincadeiras, de crianças carentes e exploradas como mão-de-obra barata. Todos personagens que iluminam a história e constróem o presente.


Este livro pode ser lido online no site abaixo.
https://www.pensecomigo.com.br/livro-historia-das-criancas-no-brasil-pdf-mary-del-priore/

O genocídio do negro brasileiro: uma (re)leitura para espaços-tempos de pandemia

“Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo” Milton Santos

10/06/2020 em Artigos e Reflexões Tempo de leitura: 15 mins read

Fonte: Por Anderson Luiz Machado dos Santos*, do Sul21



O transcorrer do mês de maio no Brasil, nos impele enquanto sujeitos negros e negras, a refletir criticamente acerca de nossas trajetórias, no contexto denominado de pós-abolição, segundo o qual, afirma um dos autores clássicos da sociologia brasileira, “o negro permaneceu sempre condenado a um mundo que não se organizou para tratá-lo como ser humano e como “igual” (FERNANDES, 1972 p.15)[i]. Diante desta questão, bem como no contexto da crise pandêmica (COVID-19), escancara-se mais uma vez, as referidas condições de reprodução da existência e sujeição da população negra no país, diante de sua posição de ser um objeto visto por um olhar tortuoso, conforme problematizou o geógrafo negro baiano Milton Santos (1926-2011). Tais elementos, nos instigam a uma (re)leitura – no sentido de produzir uma interpretação e de indicar uma leitura, sobretudo às gerações mais jovens, que vivem desde a formação territorial brasileira – no âmbito de um trabalho de grande relevância. Trata-se da obra O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado do intelectual, artista, político negro e pan-africanista Abdias Nascimento (1914-2011), sob a premissa de sua atualidade.

O referido trabalho de Abdias Nascimento, reúne XV capítulos em tons ensaísticos e propositivos. Sob o título original Racial Democracy in Brazil: Myth or Reality, o texto foi escrito em seu momento de exílio na Nigéria, como uma contribuição ao Colóquio do II Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas (Festac) realizado em Lagos, entre janeiro e fevereiro de 1977. Porém, o mesmo foi rejeitado pelas autoridades oficiais da Nigéria e do Brasil representadas no Festac’77. Ainda assim, o trabalho fora editado pelo Departamento de Línguas e Literatura Africanas da Universidade de Ifé, onde Abdias atuava como professor convidado. O trabalho foi mimeografado e distribuído aos membros do Colóquio-Festac’77. Abdias nunca obteve uma resposta formal das autoridades acerca da rejeição de seu texto, entretanto a repressão não foi suficiente para impedir a discussão do mesmo e para o reconhecimento de sua relevância. No Brasil, sua primeira edição data de 1978 pela Editora Paz & Terra, com prefácios do sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) e de Wole Soynka dramaturgo-intelectual nigeriano, Prêmio Nobel em Literatura (1986). Nesta breve reflexão utilizamos a versão mais recente, publicada no Brasil pela Editora Perspectiva[ii].

Nossa reflexão sobre a obra O Genocídio deseja enfatizar três aspectos, sem deixar de reconhecer sua profundidade e diversidade. São eles: a) a construção de uma matriz epistêmica crítica que tem no seu enlace a desconstrução de mitos; b) a interpretação da formação social brasileira e o estilo racista que impacta de maneira singular o ser negro; c) os horizontes de sentido que Abdias Nascimento recupera do papel da resistência político-cultural afro-brasileira e desdobra na reconstrução de um pensamento em ação, o qual em primeira e última instância, reivindica uma nova sociedade, multirracial e multicultural no Brasil. Como preambulo para adentrar nestes aspectos, é mister colocar em pauta a noção de genocídio enfatizada pelo autor. Nesse quesito, uma primeira associação no contexto dos debates contemporâneos, permite-nos associar genocídio e necropolítica conforme a perspectiva do filósofo camaronês Achille Mbembe (2006)[iii].

Mbembe (2006), desenvolve seu raciocínio, através da crítica aos dispositivos de poder analisados por Michel Foucault (1926-1984), sobretudo no que concerne as noções de soberania e biopoder, relações que governam o “direito de vida e de morte” dos indivíduos às populações no âmbito do Estado moderno. Para Mbembe (2006), no mundo pós-colonial, na modernidade tardia e até mesmo para setores da população subalternizada no primeiro mundo, vigora algo além dos dispositivos de controle e reprodução da população enquanto espécie (o biopoder). Impõe-se nesses espaços-tempos, uma política da morte, de extermínio da população, através do uso deliberado da violência e sujeição dos governados, esta necrose do poder – necropolítica, se funda desde a escravidão e a racialização-racismo das populações nos espaços-tempos citados, ela cria mundos de morte. Portanto, tal compreensão tem se tornado fundamental para entender e denunciar o genocídio da população negra no Brasil contemporâneo, sobretudo, a juventude periférica, as vítimas do feminicídio e transfobia, as comunidades quilombolas.

Cabe destacar, que elementos como: a denúncia da perversidade da escravidão no Brasil, nas Américas e em África; bem como o caráter sistemático da exploração/violação da mulher negra, dentre outros aspectos, permitem identificar uma convergência entre linha interpretativa da necropolítica e a noção de genocídio conforme Nascimento (2016[1977]). Por outro lado, necropoder também diz respeito, a coisificação do ser humano no capitalismo, traduzida na sua mercantilização descartável, o que conduz as populações ao estado de extrema precarização, invisibilidade e não reconhecimento de sua existência, o que Mbembe (2006) arroga como um mundo de mortos-viventes. Essa segunda linha de raciocínio acerca da necropolítica, encontra novamente relação com a concepção de genocídio de Abdias Nascimento, a qual abrange um indicioso, sistemático e silencioso processo de sujeição sociocultural, no qual a população negra do Brasil “pós-abolição” foi forçada a subalternizar-se. Como consequência, tem-se o seu embranquecimento como a única possibilidade de reprodução de sua existência nos quadros da sociedade. Deste modo, o ser negro é impelido a negar a si próprio, lhe é negada a sua autodefinição, pois impõe-se a perversidade do embranquecer, sendo este o caráter fundamental do genocídio a que o autor se refere. Trata-se de um extermínio sociocultural que se coaduna com a violência física e material que abate os seres negros do país.

a) A matriz epistêmica de desconstrução de Mitos

Para chegar à conclusão mencionada, Abdias Nascimento em O Genocídio do Negro Brasileiro, opera, em nosso olhar, uma matriz epistêmica de desconstrução de Mitos, pois o propósito central de sua obra, volta-se para a desconstrução do conceito de democracia racial, que por diferentes caminhos perpetrou-se na sociedade brasileira, refletindo-se em uma suposta relação concreta de convivência harmoniosa entre negros e brancos no país. Subjacente a essa ideia central, busca interrogar e desconstruir mitos que lhe estão atrelados, tais como: certa benevolência dos senhores e humanidade existente na escravidão latino-americana, sob a influência cristã (católica e protestante); as tendências ao intercasamento entre negros e brancos como suposição de relações horizontais entre ambos; a influência da cultura africana e de seus descendentes como sinônimo de ausência de preconceito racial no Brasil. Todos esses elementos, se revelam para o autor, conforme a lógica da desconstrução como: “uma extremamente perigosa mística racista, cujo objetivo é o desaparecimento inapelável do descendente africano, tanto física, quanto espiritualmente, através do malicioso processo do embranquecer a pele negra e a cultura do negro” (NASCIMENTO, 2016 [1977] p.49-50 [grifos do autor]).

Sabemos que no âmbito filosófico, destaca-se a noção epistemológica de desconstrução à perspectiva pós-estruturalista do filósofo franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004), que opera sobre os discursos e expressões dos sistemas de pensamento ocidental, uma constante interrogação de seus problemas, a qual não necessariamente se joga frontalmente a um conceito vulgar, mas com as repetidas questões, interroga-o aos seus limites, pondo a prova sua gênese[iv]. Essa desconstrução gera abertas, margens diante das quais os problemas postos podem ser recolocados ou reconstruídos. Deste modo, vemos a lógica de pensamento presente em O Genocídio do Negro Brasileiro, desenvolver-se em sentido semelhante, ponto a prova os Mitos intocáveis, para chegar a aberturas transformadoras. Estabelecer tal paralelo, significa que o pensamento e a ação negra, podem estar em consonância com as propostas críticas de origens distintas, desde que as mesmas sejam operacionais e contribuam com os propósitos de nossa revolução, como bem enuncia Abdias Nascimento, já nas conclusões deste trabalho.

Assim, diante desta lógica epistêmica, o autor compreende que a tese da democracia racial exalta um certo ser negro, mas para embranquecê-lo, não para reconhecê-lo, pois é parte de uma estratégia, via miscigenação e termos correlatos, que visa aproximar a nação-brasileira dos padrões culturais e estéticos brancos e europeus, sem tocar na noção de inferioridade da raça negra elaborada pelos eugenistas. Logo, o mito revela-se em tragédia – o genocídio – que permeia os crimes de violação e subjugação da mulher negra pelo homem branco, do passado ao presente, na busca por estabelecer os novos tipos sociais [o(a) mulato(a)], que caminham na estratificação sistemática de embranquecimento do povo brasileiro; a falsa democracia que incorporou políticas de imigração no período colonial e pós-colonial, com vistas a privilegiar os ingresso das populações europeias, para suprir supostas demandas do país; também, afirmou-se a presunção de que as pessoas de origem indígena e africana preferiam ser rotuladas de brancas, em benefício de sua inserção na estrutura social, uma imposição que levou inclusive ao extermínio de dados sobre a escravidão no Brasil e retirada das categorias – negros e indígenas dos censos oficiais, por muito tempo.

Ainda, Abdias Nascimento destaca como a influência da cultura africana no Brasil, foi abordada de acordo com os destacados ideólogos da democracia racial, tais como Gilberto Freyre (1900-1987) e Pierre F. Verger (1902-1996), segundo sua visão. Tais autores se utilizam de expressões como “sobrevivência” dos traços culturais africanos e “infiltrações” africanas, na religião, na culinária, na música, na escultura e pintura de origem europeia, como demonstração da essência não racista e harmoniosa da civilização brasileira. Em realidade, segundo Abdias, as expressões “sobrevivência” e “infiltração” evidenciam a natureza subterrânea e a condição marginal da cultura africana e de seus descendentes no Brasil, do contrário a civilização brasileira que diz respeito à sua fração branca, nunca aceitaria a contribuição negra, caso ela não se apresentasse como disfarçada e clandestina.

Não obstante, o autor destaca que a formação cultural afro-brasileira se constituiu pelas forças da rejeição e resistência do povo africano em sua diáspora. Assim, situa o papel do banzo, também conhecido como “a doença da saudade” da terra e da vida livre em África, que acometeu e retirou as forças vitais de uma ampla população negra escravizada. Somente diante dessa alta taxa de mortalidade negra escrava, é que se forçou aos senhores permitir ao povo negro entoar suas manifestações culturais, muito restritamente em domingos e dias santos[v]. Outro instituto da democracia racial e da consequente presença cultural negra no país, residiria sobre a teoria da saudável interação sexual entre as raças e a tendência ao intercasamento, a prova dessas relações seria o surgimento da mulata brasileira, símbolo de identidade e produto nacional. Em realidade, uma coisificação, produto da exploração sexual da mulher negra, violada em sua condição de ser. Por seu turno, apoiado em diversas pesquisas, também se revela o contraditório do intercasmento, visto que as mesmas demonstram como o branco excluiu o negro de seu círculo de convivência íntima – a família, contexto no qual o homem negro e a mulher negra só poderiam adentrar, pela porta dos fundos, como criminoso e como prostituta.

b) A formação social brasileira e seu estilo racista de ser

Do movimento epistêmico de desconstrução emerge na obra em tela, uma concepção fundamental acerca da formação social brasileira e seu estilo racista. Assim, o autor de O Genocídio postula:

“Tudo era de origem europeia, como agora quase tudo vem dos Estados Unidos. O país obtivera em 1822 uma independência apenas formal, permanecendo sua economia, sua mentalidade e cultura, dependentes e colonizadas” (NASCIMENTO, 2016[1977] p.82 [grifos do autor]).

Essa concepção nos remete a uma interpretação da formação social brasileira que leva em consideração o que contemporaneamente denomina-se de colonialidade latino-americana, conceito que segundo o sociólogo peruano Aníbal Quijano (1928-2018), extrapola a noção de colonialismo pois, abrange um sistema de relações de poder que permanece e se aprofunda, mesmo diante das independências formais. Logo, a colonialidade se funda na imposição de uma classificação racial/étnica da população e cujas relações de poder operam nos diversos planos, âmbitos e dimensões, tanto materiais quanto subjetivas da existência social. Nesse processo, as relações sujeitam-se aos capitais no âmbito econômico; à família burguesa, ao patriarcalismo no que concerne as relações de gênero e sexualidade; ao euro-“norte”-centrismo, tomado como regime de produção da subjetividade e das formas de conhecimento; ao Estado-nação e suas articulações internacionais tornadas referencias no que tange aos regimes de autoridade[vi].

As referidas relações não são vistas como formas isoladas, mas amalgamados constituem a colonialidade que Abdias Nascimento enuncia em sua concepção e luta por sua libertação, desde a perspectiva Afro, tanto quanto a questão se põe nas lutas Indígeno-Americanas e Caribenhas. Neste âmbito, também é mister situar a contribuição do intelectual negro revolucionário, oriundo da ilha Martinica, Frantz Fanon (1925-1961), que ressaltou as relações entre o colonialismo, o racismo e a subjetivação negra, como modos de ver e viver o mundo. Portanto, mais do que a subordinação material de um povo, a colonização e o racismo, fornecem as formas como as pessoas são capazes de se expressar e se entender. Logo, descolonizar significa também a necessidade de descolonização das mentes.

Nesta medida, das especificidades da formação social colonizada-capitalista-racista, o autor de O Genocídio compreende que a democracia racial significa a metáfora que designa o estilo do racismo brasileiro. O qual não se confunde com um sistema jurídico de segregação racial conforme ocorrera nos Estados Unidos e na África do Sul, mas é um sistema tão perverso quanto, visto que,

“[…]institucionalizado de forma eficaz nos níveis oficiais de governo, assim como difuso e profundamente penetrante no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do país. Da classificação grosseira dos negros como selvagens inferiores, ao enaltecimento das virtudes da mistura de sangue como tentativa de erradicação da “mancha negra” (NACISMENTO, 2016[1977] p.111 [grifos do autor]).

Para assegurar esse sistema de poder, as classes dominantes brancas não dispõem apenas dos governos, das leis, do capital, das forças armadas e da polícia, mas também de amplos instrumentos de controle social e cultural, tais como: o sistema educacional, as formas de comunicação de massa – a imprensa, o rádio, a televisão, bem como a produção literária e as formas de linguagem. Considero neste aspecto, haver um diálogo implícito entre o intelectual quilombista[vii] e o intelectual subalterno da região Sardenha – Antônio Gramsci (1891-937), pois as formas de exercício do poder branco, remetem a uma concepção de um Estado ampliado no Brasil, que recorre a não apenas à coerção, mas também ao consentimento subalternizador para sustentar a hegemonia[viii] da branquitude que nas palavras de Nascimento (2016[1977]), formam um imperialismo da brancura e do capitalismo que lhe é inerente, na formação social em questão.

Como resultado desses dispositivos, temos destruição do ser negro como pessoa, como ser criador e condutor de sua própria cultura, na medida em que é invadido em sua intimidade, em seu modo de autoanalisar-se, consequentemente em sua própria autoestima. Neste aspecto, estamos diante do que Fanon (2008 [1952])[ix], definiu como complexo psicoexistencial do ser negro frente ao racismo, no qual o ser sofre não apenas pela inferiorização econômica, mas pela epidermização dessa inferioridade. O que aliena o ser negro de sua condição de ser humano, transforma-o em uma zona de não existência, perdida em seu niilismo e aviltado pelos elementos brancos. Porém, no desfecho da obra O Genocídio do Negro Brasileiro, revela-se a luta pela saída desse complexo, a luta pelo reconhecimento do ser negro em si e na sua relação com outro. Desta forma, Abdias Nascimento demonstra como nos transformamos naquele ser de ação, reivindicado por Fanon (2008 [1952]), através das diversas formas de resistência, revoltas, movimentos sociopolíticos e manifestações culturais construídas ao longo da trajetória afro-diaspórica pela negritude brasileira.

Nesse sentido, o seu texto aborda, dentre outros processos, o papel do banzo, das revoltas escravas, das lutas e de intelectuais abolicionistas, tanto quanto destaca o legado quilombola da República de Palmares; também os movimentos como a Frente Negra Brasileira na década de 1930, na qual Abdias atuou, o Teatro Experimental do Negro fundado em 1944, fruto de seu próprio protagonismo, os primeiros Centros de Estudos e Pesquisas Afros, formados na Bahia, em São Paulo e Rio de Janeiro – a exemplo do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO), já na década 1970. Também, destaca o papel do movimento de mulheres negras, as manifestações culturais afro-brasileiras que emergem neste período e o amplo processo de formação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial em 1978 (atualmente MNU).

c) Novos horizontes de sentido como resposta ao genocídio

Portanto, de sua epistemologia crítica, desconstrutora dos Mitos, tanto quanto da construção e reivindicação dos movimentos e manifestações afro-diaspóricas no Brasil e no mundo, emergem novos horizontes de sentido – expressão que retomamos de Quijano (2007)[x] e que designa os novos imaginários sociais, a recuperação das memórias históricas e saberes frente a descolonização, sintetizados pelo intelectual quilombista na proposição de um novo país, uma nova formação social multirracial e multicultural, que pressupõe um pensamento em ação, um saber crítico e revolucionário que atualize os valores negros e africanos, somados aos valores de outros espaços-tempo, desde que possam contribuir para as necessidades da Revolução Africana. Trata-se, portanto, do delineamento de um projeto civilizatório para além das fronteiras territoriais e epistêmicas do Brasil, a ser protagonizado pelos africanos e seus descendentes na diáspora.

“Devemos nós, africanos e seus descendentes, enfatizar nossa capacidade de agir no projeto deste mundo atual, o de modelar a civilização futura, aberta a todos os eventos e expressões da existência humana, livre de exploradores e explorados, o que resulta na impossibilidade de haver opressores e oprimidos de qualquer raça ou cor epidérmica” (NASCIMENTO, 2016 [1977] p.171 [grifos do autor]).

Porém, ciente da inviabilidade imediata desta revolução popular e democrática, em seu país, o fundador do Teatro Experimental do Negro, dirige-se as autoridades brasileiras através do Colóquio-Festac’77, elaborando um conjunto medidas concretas, segundo os objetivos do evento, que apontaria recomendações a ser implementadas nos países representados. São 17 pontos enfatizados no capítulo XV (conclusão do livro, que equivale as proposições de Abdias ao relatório final do Colóquio-Festac’77), os quais constituem um verdadeiro programa de ações afirmativas, abrangendo a valorização, a reparação sociocultural e a construção de políticas de equidade, que se estendem desde a educação, a habitação e o trabalho, até a preparação da população negra para assumir o exercício de liderança política do seu país e sua inserção nos quadros dirigentes. Sugere inclusive novas relações internacionais, onde propõe a adoção de políticas multilaterais entre o Brasil e os países africanos. A leitura dos pontos muito instigante!

Porém, infelizmente, o reconhecimento das questões propostas, só foi “formalizado” tardiamente e em partes pelo Estado-Brasileiro, após as diversas lutas que confluíram para a postura signatária do país com as resoluções da III Conferência Interacional Contra o Racismo realizada em Durban (2001) na África do Sul. Deste modo, ainda estamos longe da implementação das propostas levantadas neste livro, tanto quanto, de tantas outras suscitadas pelos diversos movimentos e manifestações negras no país, ao passo que as diversas organizações e movimentos que compõem a Coalizão Negra Por Direitos atualizam tais reivindicações e horizontes de sentido, sobretudo no contexto dos necro-efeitos da crise pandêmica que a assola a população negra do país, na medida em que esta se defronta numa formação colonial-patriarcal-racista e capitalista, tão bem elucidada em O Genocídio do Negro Brasileiro.

Descansa em Orum Abdias Nascimento, sempre presente em nosso Ser-Pensamento!

(*) Professo Afro-Gaúcho, Dr. em Geografia pela Universidade Federal Fluminense

Notas:

[i] Ver: FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. Difusão Europeia do Livro, 1972.

[ii] Ver: NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectiva, 2016. 2aed.

[iii] Consultar: MBEMBE, Achille. Necropolitique. Raisons Politique, n.21, p.29-60, 2006.

[iv] Consultar: DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia. São Paulo: Papirus, 1991.

[v] Consultar: BASTIDE, Roger. Estudos Afro-Brasileiros. Perspectiva, São Paulo, 1973.

[vi] Ver: QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder y clasificación social. In: CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. (org.) El giro decolonial. Bogotá: Iesco-Pensar; Siglo del Hombre Editores, 2007. p. 93-126.

[vii] É importante lembrar que Abdias Nascimento assina este trabalho como “um quilombola de Palmares”. Assim como o ensaio-manifesto político O Quilombismo (1980), constitui outra marca de suas contribuições para a militância antirracista e pan-africanista.

[viii] Sobre o conceito de hegemonia consultar: GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Maquiavel. Notas sobre Estado a política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.v.3.

[ix] Ver: FANON, Frantz. Pele negra, mascaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008 [1952].

[x] Ver: QUIJANO, Aníbal. Des/colonialidad del poder: el horizonte alternativo. Revista América Latina en movimento. 2007. Disponível em: <https://www.alainet.org/es/active/24123>.

Portal do Geledés

https://www.geledes.org.br/o-genocidio-do-negro-brasileiro-uma-releitura-para-espacos-tempos-de-pandemia/?gclid=Cj0KCQjw6NmHBhD2ARIsAI3hrM0iA-t9A3Sn5GFCxXRI_O-honbp-UPFNkhpIG6UzmY7NE7i014lKZwaApAFEALw_wcB




A união faz a força: expressões do mito familiar em famílias negras

Reimy Solange Chagas

Este livro tem por objetivo apresentar, refletir e problematizar sobre os aspectos psicológicos de famílias negras na contemporaneidade por meio do conceito de mitos familiares, e apreendê-los partindo do pressuposto de que as fantasias, crenças e valores que eles abarcam são atravessados por questões históricas, socioculturais, políticas e religiosas capazes de influenciarem a dinâmica familiar e atribuírem significados às histórias presentes e pregressas das relações familiares que configuram sua estrutura inconsciente.

Considerando a dimensão inconsciente e subjetiva de famílias negras, propõe verificar variações no mito familiar em seu aspecto menos favorável, sob a forma de segredos familiares, que por sua vez estão imbricados em segredos sociopolíticos do contexto social, cujos silenciamentos decorrentes enredam a intersubjetividade dessas famílias, pois são transmitidos psíquica e geracionalmente.

As vicissitudes do mito familiar se referem às variações que adquire esta transmissão psíquica: se ela é inter ou transgeracional. A partir destes conceitos, é possível explicitar o caráter da variação das heranças psíquicas veiculadas na cadeia geracional destas famílias: se são estruturantes como a etnicidade, ou então alienantes, como o trauma, o luto e o não dito.

Portanto, este livro visa fundamentalmente refletir sobre a subjetividade das famílias negras e problematizá-la por intermédio da escuta clínica da abordagem psicanalítica, buscando lançar luz sobre suas especificidades, organização de seus mitos familiares e possíveis efeitos psicológicos das marcas de sua história social familiar traumática.

Harriet uma narrativa abolicionista



3 de fevereiro de 2020Camille Legrand


Harriet“, o filme responsável pela única indicação de uma pessoa não negra a um Oscar de atuação, na edição desse ano da premiação, trata-se do retrato adaptado da história da grande ativista abolicionista norte-americana, Harriet Tubman. Em seu quinto filme como diretora, Kasi Lemmons se propõe a contar a história da famosa ativista dos primórdios do movimento negro, a qual dedicou a maior parte de sua vida à libertação dos corpos escravizados, de 1850 até a sua morte, em 1913.

A proposta, por si só, de realizar uma cinebiografia de uma personalidade tão importante para o movimento negro mundial – e para o movimento pró direitos humanos como um todo – é incrível e digna de expectativa, sendo a escolha da atriz Cynthia Erivo (conhecida por dar vida à Celie Johnson, na versão musical de “A Cor Púrpura”, na Broadway) uma aposta inteligente. A trama é contada de maneira poética e artística, seja pelos momentos musicais ou pela bela fotografia, sendo a duração diminuta de duas horas e cinco minutos, incrivelmente, insuficiente.

“Harriet”- o filme e não a personagem – inicia-se com um conjunto dramático de cenas do passado e do futuro – visto que a protagonista tem visões resultantes de um traumatismo no crânio quando ainda criança – as quais misturam momentos de traumas escravistas, como a venda das irmãs de Harriet, com símbolos premonitórios. Nesse momento, a lenda Harriet Tubman, nascida no condado de Dochester, em Maryland, Estados Unidos, por volta de março de 1822, ainda era conhecida como Araminta “Misty” Ross Tubman. E conforme o filme mostrará mais tarde, a ativista abandonou seu nome de batismo ao alcançar a liberdade na Filadélfia. Portanto, “Harriet” é o nome que marca a sua liberdade, em 1849, quando escapa. 

Canções como ferramentas de fuga e a utilização divina em “Harriet”


                                        Harriet Tubman (esquerda) e a atriz Cynthia Erivo.

Sabe-se que o canto era um elemento importante aos negros escravizados, especialmente nos Estados Unidos, e este se mostra logo no início do filme. Quando segue para sua fuga, Misty (Cynthia Erivo) se utiliza do canto para avisar aos seus familiares que está partindo sozinha, sendo a canção uma forma de codificação entre os negros acerca de planos de fuga e de efetivas execuções de tais planos. Contudo, em nenhum momento do filme o uso do canto para tal fim é explicado; parece, na verdade, que as músicas foram jogadas em meio à trama como um recurso narrativo mal colocado, o qual não aparenta ter nenhum sentido lógico a não ser para mostrar o talento de Erivo.

Em relação à Misty, particularmente, o canto se conecta com sua devoção absoluta à Deus. Devoção esta que é intensamente explorada na trama, sendo lembrada e evocada de maneira que chega a ser cansativa. As visões da protagonista são reconhecidas como sinais divinos por ela, criando-se uma fé praticamente inabalável. Ocorre que, apesar da crença de as visões serem sinais divinos, como pessoa não religiosa que escreve em um site que se propõe laico, é com estranheza e descrença que absorvi tal escolha narrativa de Kasi Lemmons.

Em um filme, mesmo que biográfico, é necessário, por vezes, “embelezar” fatos para torná-los dignos da cinematografia. Mas a fantasia narrativa de “Harriet”, criada para responsabilizar as fugas dos proprietários e dos caçadores de escravos a, unicamente, uma força divina extracorpórea, é desnecessária, para dizer o mínimo. A religiosidade da protagonista, visto que foi uma parte importante de sua vida e criação, tem um papel importante no filme, porém sua utilização foi levada ao extremo e quase levou a trama a desviar-se de sua verdadeira protagonista, Misty.


Cynthia Erivo e Janelle Monae em “Harriet”. (Foto: reprodução)

Nesse momento, todavia, após fugas e salvamentos bem sucedidos, o nome Misty havia sido abandonado de vez pelo nome Harriet. A figura tornava-se aquilo que conhecemos hoje: uma ativista e abolicionista negra que dedicou a sua vida à libertação de outros negros escravizados e à garantia do fim do regime escravocrata no sul dos Estados Unidos. Sozinha, fez 13 missões de resgate e libertou 70 escravos. Em meio a Guerra Civil norte-americana, guiou o ataque a uma balsa no rio Combahee, o qual libertou, aproximadamente, 700 escravos.

Diz-se que a verdadeira Harriet bradou “Liberdade ou morte; se eu não posso ter uma, eu terei a outra“, e é esse espírito que moveu a ativista na luta à libertação de negros escravizados por anos, até a sua morte. A Harriet retratada no filme, e este relato não foi encontrado em fontes externas, até ameaça seus companheiros negros com sua pistola para à fuga, o que reforça o imediatismo de liberdade buscado pela protagonista. É curioso ver o desespero armado de Harriet, e com certeza surpreendente, mas não nos cabe ignorar a urgência enfrentada pela personagem nos momentos de fuga, nos quais a morte era a única opção de liberdade mental caso a corpórea falhasse. Harriet estava em uma posição de liderança, ainda vista com maus olhos e estranheza quando ocupada por uma mulher negra, na qual necessitava demostrar força, controle e certeza extremas, não cabendo nenhuma hesitação.

Há forma certa para se fazer um filme histórico?

Elenco e diretora Kasi Lemmons nos bastidores da gravação de “Harriet”. (Foto: reprodução)

Foi impossível, ao longo do filme, não compará-lo com o mais recente exemplo de “filem escravocrata”, o vencedor do Oscar de Melhor Filme de 2014, “12 Anos de Escravidão”. Ambos os filmes se passam, em parte, mais ou menos na mesma época, isto é, no período de 1840 a 1850. 

No filme de Steve McQueen, também uma cinebiografia, a contação da história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é feita de maneira mais dramática, carregada e silenciosa. O peso do trauma vivido pelo protagonista – de livre para escravo – e dos demais escravos retratados é construído de forma cadencial e zelosa para garantir que a telespectadora sinta, na medida do possível, as emoções de cada personagem. Nesse caso, não é uma história de esperança e superação, mas de dor profunda e latente desespero por não sabermos o fim real das personagens.

No caso de “Harriet”, apesar do contexto histórico ser igualmente pesado quando consumido, ele parece, de certa forma, mais leve. As grandes cenas de confronto entre Harriet e o mundo, a musicalidade deslocada e a obsessiva e estranha caçada de Harriet pelo filho de seu proprietário legal falecido – parece que só fizeram um papel qualquer para pôr o namorado da Taylor Swift – fazem com que o filme perca, pela forma com que tais elementos foram dispostos na trama, a sua merecida seriedade. Como já fez “A Cor Púrpura”, por exemplo, é possível mesclar a narração de uma história série com leveza e até partes humorísticas sem perder o rumo, mas não foi o caso visto em “Harriet”.


Cena de “A Cor Púrpura” (1985). Foto: divulgação

Ao fim do filme, embora as atuações, em particular, não devam ser responsabilizadas, parece mais que assistimos à um vídeo clipe, com o contexto jogado sem muitas explicações e às pressas. O longa é carregado nas costas por Cynthia Erivo; ela, em meio a um elenco diverso e talentoso, foi a única que conseguiu se destacar e se livrar da proposta narrativa fraca trazida por Lemmons. Ao depender de momentos narrativos, e não da trama inteira, o filme parece mais uma série longa demais. Portanto, com uma diretora e roteirista negra, falando de uma heroína negra, é triste ver como a trama parece incompleta e deficiente. 

Os trabalhos primorosos em iluminação, fotografia e sonoplastia passam despercebidos em meio à correria narrativa da trama. Nem mesmo a voz radiante e simbólica de Nina Simone, cantando sobre características presentes nas fugas de escravos, consegue nos trazer de volta ao envolvimento pleno na trama. 

#Oscarsowhite 2020 (mais do mesmo da Academia)

Como dito no início, “Harriet” é o responsável pela única indicação de uma pessoa não branca – já que Antonio Banderas é, sim, branco e europeu – a edição do Oscar de 2020. Não se questiona, por certo, o merecimento da atriz à indicação, mas sim o fato dela ser a única mulher não branca indicada em um ano no qual a diversidade cinematográfica falou mais alto em qualquer sala de cinema.

O ano de 2019, apesar de seus inúmeros desapontamentos, foi o responsável pelo aparecimento de muitas e diversas histórias disponíveis ao grande público. “As Golpistas”, “Parasita“, “Us“, “A Despedida”, “Atlantique“, “Adoráveis Mulheres“, só para citar muitos alguns. Impressiona – ou, na verdade, não – que ainda tenhamos que apontar a falta de diversidade alarmante de grandes premiações norte-americanas e europeias, como o BAFTA. No ano, apenas à “Parasita” foi permitido suprir, apesar de não expressamente falada, a “cota diversidade” das premiações ocidentais, ignorando-se os demais excelentes trabalhos de pessoas não-brancas.


Cena de “Harriet”, longa de Kasi Lemmons. (Foto: reprodução)

https://deliriumnerd.com/2020/02/03/harriet-critica-filme-kasi-lemmons/

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Documentário "The Family"

A Netflix lançou um novo documentário sobre o grupo religioso secreto 'The Family'. Apesar de suas falhas, é imperdível.

Por John Fea

16 de agosto de 2019 às 7h GMT-3

354

Na semana passada, a Netflix lançou “ A Família ”, um documentário em cinco partes sobre um grupo secreto de cristãos com a missão de espalhar os ensinamentos de Jesus em Washington, DC, e além. Muitos progressistas vão adorar o documentário porque lhes dá o que querem ouvir, enquanto os conservadores provavelmente questionarão os motivos dos envolvidos.

“A Família” é dirigido por Jesse Moss e baseado em dois livros do jornalista Jeff Sharlet: “ A Família: O Fundamentalismo Secreto no Coração do Poder Americano ” (2008) e “ Rua C: A Ameaça Fundamentalista à Democracia Americana ” (2010 ) (Sharlet é um produtor executivo e tem uma quantidade significativa de tempo de câmera.)

Os livros de Sharlet atraíram eruditos progressistas preocupados com a ameaça da direita cristã à separação entre Igreja e Estado, mas seu trabalho também teve sua cota de críticos.

O historiador da religião Randall Balmer, que nos últimos 30 anos tem sido um dos nossos observadores mais perspicazes do evangelicalismo americano, criticou “A Família” em uma crítica de 2008 no The Washington Post. Balmer criticou o uso desleixado da história por Sharlet, seu estilo paranóico e sua incapacidade de levar a sério os membros da Família que não se identificavam com a direita cristã. (Coincidentemente, Balmer e Sharlet são agora colegas em Dartmouth.)

Quando Sharlet publicou seus livros, muitos observadores da religião americana, como Balmer, eram céticos em relação às teorias da conspiração sobre os esquemas teocráticos de grupos de seitas que trabalhavam nos bastidores em Washington.

Os historiadores do cristianismo americano trabalharam arduamente tentando convencer os acadêmicos e o público em geral de que o evangelicalismo era um movimento religioso, não uma cobertura para uma tentativa nefasta de criar uma teocracia puritana do século 17. Os esforços desses historiadores, é claro, não foram fáceis durante a Era de Reagan, a maioria moral e as "guerras culturais". O livro de Sharlet não ajudou a causa.

Mas muita coisa mudou na última década. Na verdade, o documentário de Moss e Sharlet, que dedica a maior parte de sua cobertura aos desenvolvimentos em “A Família” após 2010, é bastante oportuno. A direita cristã encontrou energia renovada desde a eleição do presidente Trump. O nacionalismo cristão, a ideia de que os Estados Unidos foram fundados como uma nação cristã e precisam retornar às suas raízes religiosas, está em ascensão . Muitos eruditos e estudiosos se perguntam se o movimento evangélico pode ser separado da agenda do Partido Republicano.

É hora de examinar o trabalho de Sharlet (e agora o trabalho de Moss) com novos olhos, e somente por esse motivo, “The Family” é uma exibição obrigatória.

Abraham Vereide, um evangélico norueguês, fundou a Família (seu nome original era Liderança Cristã Internacional) em 1935 para fornecer um espaço para homens com poder em sua cidade natal de adoção, Seattle, se reunirem regularmente para orar e estudar a Bíblia.

Como Sharlet observa em “The Family”, e o historiador de Princeton Kevin Kruse argumentou em seu livro “ One Nation Under God: How Corporate America Invented Christian America ”, a organização de Vereide tinha mais do que apenas uma agenda espiritual. Ele fundiu o cristianismo evangélico com o capitalismo corporativo para derrotar o que ele acreditava ser as tendências socialistas do New Deal de Franklin D. Roosevelt. A Família surgiu em um momento de agitação trabalhista em Seattle, e Vereide usou sua comunhão de empresários cristãos para esmagar o crescente movimento de trabalhadores da cidade.

Sharlet aprendeu sobre a Família quando foi convidado a morar em Ivanwald, uma casa em Arlington, Virgínia. Os rapazes, preparando-se para uma futura liderança no movimento, residiam lá na comunidade espiritual e passavam um tempo atendendo às necessidades da liderança da Família e internacional dignitários que se conheceram em uma mansão próxima conhecida como Cedars. O episódio 1 de “The Family” dramatiza a experiência de Sharlet em Ivanwald.

A Família agora é mais conhecida por patrocinar o Café da Manhã Nacional de Oração, um evento que atraiu especialmente os evangélicos. O sucessor de Vereide, Doug Coe; eventualmente assumiu o controle da reunião; Líderes religiosos no mundo da política, negócios e cultura vêm a Washington todo mês de fevereiro para compartilhar uma refeição e construir redes entre crentes que pensam da mesma forma. Desde a sua criação, todos os presidentes - de Eisenhower a Trump - compareceram.

Coe, falecido em 2017 , era um enigma, e o documentário não nos ajuda a conhecê-lo melhor. Por um lado, Coe parece ter sido um cavalheiro cristão gentil, com raízes nos principais ministérios evangélicos, que se sentiu chamado a ministrar a políticos, legisladores e outros homens de influência em Washington. Sua principal preocupação era falar às pessoas sobre Jesus.

Mas o Coe retratado aqui era um mestre de marionetes que exigia lealdade de seus seguidores. Ele subsidiou ilegalmente o aluguel de congressistas que moravam em uma casa de propriedade da Família chamada C Street Center. Ele modelou a filosofia organizacional da Família segundo a máfia e os nazistas. E ele operou em segredo com pouca responsabilidade.

Moss e Sharlet parecem estar interessados apenas neste lado sombrio de Coe. Eles se concentram nos numerosos esforços da Família para confundir ou, em alguns casos, cruzar a linha entre a Igreja e o Estado. Esse é especialmente o caso nos episódios que tratam da influência da Família fora dos Estados Unidos. “A Família” documenta vários incidentes em que a organização de Coe financiou a viagem de membros do Congresso para se encontrarem com líderes mundiais autocráticos com o propósito de compartilhar a mensagem de Jesus. Embora essas reuniões não sejam problemáticas por si mesmas, o documentário aponta que esses embaixadores de Cristo raramente condenam, ou em alguns casos simplesmente ignoram, as violações dos direitos humanos desses líderes.

Além disso, os líderes mundiais muitas vezes consideram essas delegações como enviados dos Estados Unidos. Sharlet expressa isso bem quando diz que Coe e os membros do Congresso da Família se reúnem com líderes mundiais “como representantes do governo mais poderoso do mundo”, mas quando chegam, afirmam que “estão apenas falando sobre o meu Jesus. ” Alguns desses congressistas até avançaram a agenda religiosa da Família enquanto serviam em viagens oficiais do governo financiadas pelos contribuintes, e pelo menos um passou um tempo na prisão por lavagem de dinheiro por meio da Família.

De fato, “The Family” apresenta um caso convincente de que muitos dos seguidores de Coe são nacionalistas cristãos que usam táticas de fomento ao medo e influência política para espalhar um falso evangelho que iguala o cristianismo ao poder mundano.

Muitos telespectadores irão inevitavelmente equiparar a Família ao evangelicalismo americano. E quem os culparia se o fizessem? Algumas das práticas mais problemáticas da Família refletem uma abordagem à religião e política que levou 80 por cento dos evangélicos americanos a votar em Trump em 2016. Muitos dos políticos que gravitam em torno da Família realizaram campanhas destinadas a convencer os evangélicos de que gays, muçulmanos, Barack Obama e os imigrantes estão corroendo a América cristã branca.

Mas a Família também parece ser uma organização muito mais complexa do que o movimento quase teocrático que Moss e Sharlet fazem parecer. A história da organização sugere que seus membros e amigos também incluem cristãos que rejeitam o nacionalismo cristão que veio a definir muito do evangelicalismo. Por que Hillary Clinton ou o progressista evangélico Jim Wallis ou Jimmy Carter gravitaram em torno de Coe? (Para ser claro, nenhum deles é considerado “membro” da Família. Clinton e Wallis não aparecem no documentário, mas Carter é entrevistado.) Coe os enganou? Ou eles acreditavam que a visão de Coe para a oração e o estudo da Bíblia não era apenas apropriada, mas valiosa, nos Estados Unidos? Moss e Sharlet não parecem interessados em explorar essas questões.

Tomemos, por exemplo, o grupo de comunhão inspirado na Família que se reúne em Portland, Oregon, e é apresentado com destaque no Episódio 5. Os homens presentes são intensos sobre sua fé. Eles revelam uma abordagem masculina da fé cristã que faz parte do movimento há muito tempo. Mas eles passam pouco tempo falando sobre governo ou política.

O grupo é inter-racial e é liderado por um evangélico afro-americano. Um membro branco critica abertamente Moss pela falta de diversidade racial em sua equipe de filmagem. Em um ponto, a conversa parece que poderíamos estar assistindo a uma reunião local do Black Lives Matter. Mesmo assim, Sharlet parece sugerir que esses homens estão sendo treinados, assim como os rapazes que encontrou em Ivanwald, para promover a missão teocrática da Família.

Os membros do grupo de Portland não são corretores de elite. Eles parecem ser homens comuns com problemas cotidianos que desejam ser maridos e pais melhores. Eles lutam com a pornografia, lamentam a prevalência do divórcio e do adultério, mesmo quando percebem que não estão imunes a tais problemas, falam sobre reconciliação racial, se desafiam a entregar suas vidas a Deus, mostram-se humildes e responsabilizar uns aos outros em sua busca pela fé cristã.

Talvez seja isso que a Família, em sua essência, e apesar de suas muitas falhas, realmente se trata.

John Fea ensina história americana no Messiah College em Mechanicsburg, Pensilvânia, e é o autor, mais recentemente, de " Acredite em mim: o caminho evangélico para Donald Trump ".

Correção: Uma versão anterior desta peça afirmava incorretamente que Doug Coe começou a reunião do café da manhã de oração e foi atualizada para refletir que ele assumiu a reunião. Esta peça também foi atualizada para corrigir o nome original do grupo perfilado no documentário: Liderança Cristã Internacional. A peça também foi atualizada para esclarecer que o autor acredita que Jeff Sharlet parecia sugerir que homens estavam sendo treinados para promover a Família.


https://www.washingtonpost.com/religion/2019/08/16/netflix-released-new-documentary-secretive-religious-group-family-despite-its-flaws-its-must-see/


terça-feira, 15 de junho de 2021

EL PAÍS -A prisão de Paulo Freire, “subversor dos menos favorecidos”, na ditadura

A prisão de Paulo Freire, “subversor dos menos favorecidos”, na ditadura

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/22/cultura/1571754417_189523.html

Educador brasileiro foi preso por mais de 70 dias durante o regime militar sob a justificativa de doutrinação marxista. Leia trecho do livro 'O Educador', de Sérgio Haddad


Quando os militares tomaram o poder em 1º de abril de 1964, depondo o então presidente João Goulart, Paulo Freire vivia com a família em Brasília, a serviço do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Envolvido com o trabalho de formação de professores em Goiânia, era sua assistente, Carmita Andrade, quem o mantinha informado sobre a intensa movimentação política na capital. Apenas dois dias antes, Carmita havia sugerido que ele voltasse a Brasília de imediato, porque as tensões pareciam se agravar decisivamente. Retornado às pressas, Paulo se surpreendeu ao procurar Júlio Furquim Sambaqui e ser convidado a acompanhar a leitura de uma conferência que o ministro daria dali a alguns dias. O chefe queria sua opinião. Incrédulo com a ingenuidade de Sambaqui, Paulo o alertou para o que lhe parecia um quadro de grave instabilidade institucional — e para a improbabilidade de ocorrer qualquer nova atividade do governo que representavam. No dia seguinte, os militares se instalariam no poder.

O ambiente político tornou-se tenso, com notícias desencontradas de todos os lados: haveria resistência da população? O Governo deposto conseguiria reagir ao golpe de Estado? Diante do clima de insegurança e da incerteza sobre seu futuro no ministério, Paulo pediu à mãe que levasse os filhos dele para Recife, onde mantinha uma casa. Providências tomadas, ele e a esposa, Elza, permaneceram em Brasília, levando uma vida reservada na casa de amigos. Queriam ser notados o mínimo possível.

Com lançamento previsto para 13 de maio, o Programa Nacional de Alfabetização seria extinto em 14 de abril, treze dias depois do golpe militar. O novo Governo aproveitou a ocasião para fazer duras acusações ao trabalho que Paulo e sua equipe vinham desenvolvendo; apontaram o material didático produzido como contrário aos interesses da nação e acusaram seus autores de querer implantar o comunismo no país. Acabava ali o sonho de lançar 60.870 Círculos de Cultura para alfabetizar 1,8 milhão de pessoas ainda em 1964, 8,9% do total na faixa de quinze a 45 anos que não sabiam ler nem escrever. A preocupação maior de Paulo era agora com o imponderável, um futuro incerto e perigoso para ele e sua família diante de tais acusações e do clima de perseguição política que se instalara.

Ao extinguir o Programa Nacional de Alfabetização, os militares respondiam às pressões de parcela conservadora da sociedade brasileira que atacava e desqualificava o trabalho de Paulo Freire. As denúncias passaram a ser instrumento de luta dos partidos políticos que apoiavam o golpe contra as siglas ligadas ao ex-presidente João Goulart. Paulo viu sua situação se tornar cada vez mais complicada.

Condenação do método

Na Câmara dos Deputados, políticos conservadores se revezavam na condenação permanente de seu método de alfabetização. Em 18 de abril, o deputado Emival Caiado, do partido conservador União Democrática Nacional (UDN), denunciou Mauro Borges, então governador de Goiás e aliado do ex-presidente Jango, de implantar o comunismo no Estado: “O método comunizante do sr. Paulo Freire teve entusiástica acolhida do Governo goiano. O sr. Mauro Borges deu total e completa cobertura a órgãos estudantis dominados por comunistas”. Caiado concluiu, aos brados: “Não creio que em nenhum outro Estado o comunismo tenha se infiltrado tanto!”.

Intensamente debatido como uma questão social das mais relevantes, o analfabetismo exigia dos militares uma resposta rápida, algo concreto que pudesse ser contraposto ao que vinha sendo feito nos anos anteriores. Em 15 de maio, os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo repercutiram a proposta apresentada pela vereadora paulistana Dulce Salles Cunha Braga ao novo ministro da educação, Flávio Suplicy de Lacerda. Figura ativa na articulação do golpe, a advogada e professora afirmava poder erradicar o analfabetismo no Brasil em apenas oito meses. Denominado “Alfabetização para massas”, seu método teria se mostrado bastante eficiente ao ser aplicado a partir de veiculação na rádio Record, no estado de São Paulo. Dulce propunha, com base nessa experiência, uma cartilha a ser distribuída pelo MEC, com apoio radiofônico do pro- grama A voz do Brasil, a fim de alcançar todo o território nacional. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, uma nova versão da cartilha já estaria pronta para divulgação imediata, com leituras retiradas do “ideário democrático, numa espécie de réplica ao modelo comunizante do método Paulo Freire”. O ministro Suplicy de Lacerda respondeu que analisaria a proposta com atenção e que logo se manifestaria.

Ao mesmo tempo, também o debate sobre o voto do analfabeto voltou à tona nos meses que se seguiram ao golpe militar. Em um país que historicamente proibia o voto aos iletrados, o Programa Nacional de Alfabetização representava uma ameaça aos redutos políticos cativos nas eleições seguintes. Em Sergipe, por exemplo, o Programa permitiria acrescer 80 mil eleitores aos 90 mil já existentes. Da mesma forma, em Recife, a iniciativa praticamente dobraria a quantidade de eleitores, elevando de 800 mil para 1,3 milhão o número de títulos. Projetados no cenário nacional, os exemplos demonstravam como o método do professor Paulo Freire, que propunha alfabetizar um iletrado em 40 horas, poderia alterar a correlação das forças políticas.

Como o programa de alfabetização, a questão do voto dos analfabetos também estava em debate e exigia uma resposta do novo governo. O marechal Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro militar a assumir a presidência depois do golpe, encaminhou ao Congresso Nacional uma proposta de mudança tímida, que estendia o voto aos iletrados apenas nas eleições municipais — e de maneira facultativa. Ainda assim, a proposição foi derrotada, em parte pelo pouco empenho da bancada governista, fazendo crer que a medida era mero jogo de cena.

Intensiva propaganda comunista

Em sua edição de 30 de junho de 1964, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um artigo de Antônio Bernardes de Oliveira, médico, professor universitário e membro da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, intitulado “O voto do analfabeto, um desserviço à Nação”. O autor argumentava que tal possibilidade “só pode interessar ao demagogo e ao oportunista sem escrúpulos; não corresponde a nenhuma aspiração nacional; anula e avilta o voto consciencioso e de qualidade; compromete o regime; afasta as elites legítimas; reduz o papel dos partidos; convida ao suborno; nivela por baixo”. Sobre o método de Paulo Freire, em sua opinião adotado pelo governo deposto apenas para ampliar o colégio eleitoral, Bernardes de Oliveira dizia não passar de “uma manobra para alcançar dois escopos, uma intensiva propaganda comunista e a eclosão de uma invencível força eleitoral de índole facciosa onde a demagogia teria as portas abertas”.

Em Brasília, Paulo assistia a tudo com discrição. Elza já havia voltado para Recife para ficar junto aos cinco filhos do casal — Madalena, a mais velha, com dezoito anos, seguida por Cristina, Fátima, Joaquim e o caçula Lutgardes, então com cinco anos. Através de um intermediário com contatos entre os militares, Paulo sondou o então chefe do Gabinete Militar, o general Ernesto Geisel, e o general Antônio Carlos Muricy, comandante da 7ª Região Militar, se haveria algum impedimento para que deixasse Brasília e se juntasse à família. Quando soube que não, embarcou imediatamente para Pernambuco.

Chegando em Recife, tratou de retomar suas atividades acadêmicas e seus escritos, que havia deixado de lado com a mudança para Brasília. Paulo conquistara alta visibilidade a partir de 1963, quando encampou uma experiência de alfabetização em Angicos, no Rio Grande do Norte, trabalho desenvolvido com a equipe do Serviço de Extensão Cultural (SEC) da Universidade de Recife. Ali, 300 jovens e adultos participaram de seu processo de alfabetização em 40 horas. Amplamente propagandeados pelo governo estadual, os bons resultados levaram João Goulart a se deslocar de Brasília até o interior potiguar para participar do encerramento do curso. Com o sucesso e a repercussão da iniciativa, Paulo foi convidado pelo Ministério da Educação e Cultura a estender o trabalho para todo o país. Aceitou a proposta e se mudou com a família para Brasília. Em junho de 1963, começou a trabalhar na formação de futuros coordenadores dos núcleos de alfabetização, que seriam implantados em praticamente todas as capitais. Só no estado da Guanabara, cerca de 6 mil pessoas se inscreveram naquela ampla mobilização nacional pela educação, que seria interrompida pelos militares em abril do ano seguinte.

De volta a Recife, Paulo se apresentou voluntariamente à Secretaria de Segurança Pública e constatou que não havia qua quer ordem de prisão contra ele. Foi informado, no entanto, de que poderia ser chamado para depor a qualquer momento.

Intimidação durante a ditadura

O clima de intimidação era geral. As universidades e demais instituições de ensino público seriam afetadas diretamente pelos Atos Institucionais, que davam poder aos militares a partir de comissões de investigação instauradas para averiguar opositores, cassar mandatos políticos, destituir de cargos e retirar o direito ao voto. Com o objetivo declarado de voltar a integrar os alunos “na sua tarefa precípua de estudar e os professores na sua missão de ensinar”, as medidas estabeleciam um rígido controle sobre o universo estudantil com a pretensão de coibir os crescentes protestos e manifestações.

Atendendo às orientações impostas pelo Ato Institucional nº1, de 9 de abril de 1964, João Alfredo, reitor da Universidade de Recife, em que Paulo trabalhava, convocou uma reunião do Conselho Universitário para o dia 27 de abril. Decidiu-se instalar uma comissão de professores para apurar responsabilidades de docentes e servidores na “prática de crime contra o Estado e seu patrimônio, a ordem política e social, ou atos de guerra revolucionária”, conforme rezava a portaria. Essa co- missão deveria abrir rapidamente sindicâncias e analisar documentos a fim de elaborar relatórios para o reitor.

Paulo foi interrogado sobre sua atuação na universidade. A comissão solicitou que os esclarecimentos necessários à sua defesa lhe fossem passados por escrito. Os dias seguintes foram dedicados a produzir um documento descritivo de seu trabalho, em resposta às dezoito perguntas encaminhadas a ele. Paulo aproveitou para tecer considerações pessoais, indignado com a evolução dos fatos na instituição de ensino e no país. O documento seria entregue no dia 25 de maio. Ao esclarecer que atuava no SEC desde sua implantação, em 1962, Paulo chamava a atenção para o fato de ser amigo do reitor, a quem tinha o dever de lealdade: “Aprendi com meu pai e com minha Igreja que a lealdade, a coragem e a honradez, a retidão não podem ser desprezadas pelo homem, sob pena de se desprezar a si mesmo, e deixar de já ser homem”. O documento respondia às perguntas enumerando as atividades realizadas nos dois anos anteriores. Paulo mencionou que havia sido convidado pelo então ministro Paulo de Tarso para coordenar um programa nacional de educação para adultos, e não simplesmente de alfabetização. E que entendia o convite como honroso não só para ele, mas também para a universidade. Por isso havia exigido que o trabalho ocorresse por meio do SEC, em convênio do ministério com a Universidade de Recife, na qual continuaria com suas pesquisas regulares.

Atividades consideradas subversivas

Em relação às críticas da imprensa recifense sobre suas atividades, tachadas de subversivas ou propagadoras de ideias contrárias ao regime democrático, respondeu que não só tinha conhecimento do que se dizia na cidade “mas também em todo o Brasil e que a leitura dessas críticas lhe servira para fazer um verdadeiro curso de como se pode, por ignorância, má-fé, ou outras coisas quaisquer, distorcer o pensamento dos homens”. Em contrapartida, destacou a valorização e o apoio ao trabalho do SEC em artigos e depoimentos de nomes como o do sociólogo Gilberto Freyre e do professor Walter Costa Porto. Paulo fez referência também à Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, em Brasília, onde estivera para dar uma conferência que, seguida de debate, gerou muitos elogios ao seu trabalho. Todas essas pessoas, observou, não eram comunistas nem estavam interessadas em comunizar o país — e justamente por isso apoiavam o que estava sendo feito. Escreveu que não podia deixar de rir quando o acusavam de “lavador de cérebros”, pois a essência da sua teoria pedagógica era alérgica a regimes totalitários: “Nego, pois, a vera- cidade das acusações assacadas contra o SEC, anteontem, on- tem e hoje. Nego que o SEC […] exerça atividades subversivas ou contrárias ao regime democrático. Horroriza-me o assanhamento destas acusações”.

Em suas considerações finais, Paulo faria uma defesa intransigente da alfabetização de adultos. Escreveria: "Há até quem diga que não adianta alfabetizarmos esses 36 milhões de brasileiros porque talvez 'papagaio velho não aprende a ler'. Como se estas legiões de analfabetos não constituíssem, para nós, seus irmãos letrados, uma prova de nosso desamor. De nossa incúria. De nosso fracasso. Nunca pretendemos ser os donos da alfabetização nacional. Há analfabetos demais. […] Se tudo o que dissemos em nossa defesa pessoal e na defesa do SEC a ninguém convencer, paciência. Salvem-se, porém, os analfabetos".

Entregue o documento, Paulo ficou à espera do parecer da comissão e de como o Ministério da Educação e Cultura reagiria frente ao declarado. Cerca de três semanas depois, em 16 de junho, dia do aniversário de Elza, estava em casa trabalhando na reescrita para publicação de sua tese Educação e atualidade brasileira quando dois agentes bateram à sua porta e pediram para que os acompanhasse. Sem imaginar o que viria, vestiu-se, tomou um café, despediu-se da esposa e seguiu com os policiais. No trajeto, passaram pela Secretaria de Segurança Pública, pela polícia e de lá seguiram para o quartel do 4º Exército. Apresentado ao capitão de plantão, foi fichado e detido — sem nenhuma peça de roupa ou objeto de higiene pessoal, nenhum livro para acompanhá-lo. Paulo não tinha imaginado que de fato pudesse ser preso.

Duas semanas depois, em 1º de julho, prestou novo depoimento sobre suas “atividades subversivas antes e durante o movimento de 1º de abril, assim como suas ligações com pessoas e grupos de agitadores nacionais e internacionais”, agora em inquérito policial militar chefiado pelo tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima. Duro nos interrogatórios, em 2014 Ibiapina Lima foi apontado no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, junto a outros 376 agentes do Estado, por violação dos direitos humanos e crimes cometidos durante o regime militar.

O tenente-coronel iniciou o interrogatório pela formação e pelas atividades profissionais de Paulo; questionou-o em seguida sobre inúmeros autores e seus métodos pedagógicos: Dalton, Montessori, Mackinder, Decroly, Kilpatrick, Peter- sen, Cousinet, Laubach, Alfredina de Paiva e Souza, sintético, analítico-sintético… Surpreso, Paulo respondeu sobre aqueles que conhecia, afirmou que, em sua maioria, eram integrantes de uma pedagogia moderna, defensora de uma educação ativa na qual o educando pudesse superar a passividade característica da escola antiga e assumir uma posição participante em seu aprendizado.

Na sequência viriam perguntas para testar seu conhecimento específico sobre os autores e métodos apresentados, os resultados que produziram, onde foram aplicados. Depois, sobre sua avaliação dos sistemas de ensino adotados pelo Exército dos Estados Unidos e do Brasil a partir de 1941. Em seguida, Paulo foi questionado sobre a diferença entre sua visão pedagógica e a perspectiva de cada um dos outros educadores citados. E, finalmente, sobre o seu método de aprendizado — destinava-se apenas à alfabetização ou ao ensino de maneira geral?

Em relação ao último questionamento, Paulo se deteve mais pacientemente, explicando com didatismo para Ibiapina Lima que sua principal preocupação era educar, e não só alfabetizar. Esclareceu que era um método baseado no diálogo, que abordava situações da vida cotidiana e pretendia fazer com que os alunos se tornassem pessoas ativas a partir das discussões sobre o contexto em que viviam. Descreveu os procedimentos para a escolha das palavras, o modo como elas eram decompostas em sílabas que depois se juntavam em outras combinações para construir novas palavras. Para concluir, disse que todo seu trabalho educativo se fundava no absoluto respeito ao ser humano e que o importante era educar, não doutrinar.

Nesse momento do inquérito, tendo ouvido Paulo com atenção, Ibiapina Lima tornou-se mais agressivo; perguntou como ele poderia se considerar um educador se demonstrava desconhecer parte dos teóricos citados. Paulo argumentou que não lhe cabia julgar a si próprio e que não tinha nada a acrescentar sobre os demais autores.

O tenente-coronel então fez referência à duração do método de alfabetização de Paulo Freire, questionou o porquê das 40 horas — rapidez tão alardeada pelos meios de comunicação. A busca por uma solução ágil, respondeu Paulo, era necessária porque o problema era muito grave, e argumentou que a alfabetização deveria ser aprofundada em fases subsequentes. Quanto à originalidade de seu trabalho, afirmou que não tinha pretensões de ser original, mas de dar sua contribuição ao combate do analfabetismo.

Ibiapina Lima então questionou Paulo sobre seu suposto envolvimento com o comunismo ou com regimes totalitários, comparando seu método àqueles utilizados por Hitler, Mussolini, Stalin e Perón. Quis saber também sua opinião a respeito de Cuba, da União Soviética e da China. E o que pensava sobre Brizola, Miguel Arraes, Luís Carlos Prestes, Francisco Julião e Gregório Bezerra. Em uma guerra entre o Brasil e um país comunista ou socialista, de que lado Paulo estaria? Paulo se defendeu de todas as perguntas. Constrangido pelas circunstâncias, repudiou o comunismo, expressou-se como apoiador das reformas do marechal Castello Branco, mostrou-se satisfeito com sua liderança, negou vontade de deixar o país e, por fim, colocou-se na condição de cristão que valorizava o ser humano e que se orientava pela doutrina da fé. Depois de horas de tensão e afrontamento, pôde enfim voltar para a cela. Dois dias depois, em 3 de julho, foi solto.

Prisão

Por pouco tempo, entretanto. Paulo voltou a ser preso já no dia seguinte. Sem maiores explicações, foi levado para o Quartel de Obuses, no bairro de Jatobá, na vizinha Olinda. Foi encarcerado em uma das solitárias do piso inferior, onde ficava a prisão dos sargentos e tenentes. A cela era pequena, as paredes, ásperas; havia apenas uma cama e altura justa para que Paulo ficasse em pé. Poucos dias depois, foi transferido para a enfermaria dos oficiais, no andar de cima, para onde eram encaminhados os presos com curso superior.

Ali passaria a maior parte de seu segundo encarceramento, convivendo com outros detidos como Clodomir Santos de Morais, ativista político ligado ao Partido Comunista e às Ligas Camponesas, Pelópidas Silveira, o prefeito deposto de Recife, o advogado Joaquim Ferreira e Plínio Soares, ex-funcionário da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), entre outros políticos e lideranças sociais.

Para passar o tempo, além de conversar e contar casos, jogavam xadrez e faziam palavras-cruzadas. Paulo também se dedicou intensamente à leitura. Caiu-lhe nas mãos o clássico Grande sertão: veredas. Incomodado com a linguagem de Guimarães Rosa, desistiu do livro e comentou com Clodomir sua dificuldade com o estilo, o palavreado, o tom regional do romance. Surpreso, o companheiro explicou as circunstâncias que levaram aquela região entre o rio São Francisco e Goiás a manter uma espécie de dialeto próprio, o mesmo falado até então por sua mãe e alguns parentes que moravam ali. “Se você quiser, eu, com toda a satisfação, vou tratar de traduzi-lo”, propôs Clodomir, disposto a fazer anotações sobre as expressões idiomáticas no próprio livro. Paulo aceitou de imediato.

Em clima de camaradagem, o tempo se arrastava no andar de cima do Quartel de Obuses. Um dia, um jovem tenente se aproximou da cela de Paulo: “Professor, vim conversar com o senhor porque agora nós vamos receber um grupo de recrutas e, entre eles, há uma quantidade enorme de analfabetos. Por que o senhor não aproveita sua passagem por aqui e ajuda a gente a alfabetizar esses rapazes?”. Ao que Paulo respondeu, surpreso com a ingenuidade do rapaz: “Mas meu querido tenente, estou preso exatamente por causa disso! Está havendo uma irracionalidade enorme no país hoje, e se o senhor falar nessa história de que vai convidar o Paulo Freire para alfabetizar os recrutas, o senhor vai para a cadeia também. Não dá!”.

Somados os dois períodos de encarceramento, em Recife e em Olinda, Paulo ficou preso por mais de setenta dias. Fez um acordo com a mulher para que os dois filhos mais novos não o visitassem na prisão. Para eles o pai estava viajando. Durante todo esse tempo, Elza desdobrou-se como pôde para cuidar da família e atenuar o sofrimento do marido na prisão. Uma de suas estratégias era entregar regularmente uma panela da comida de casa, sempre que possível em quantidade suficiente para alimentar não só os companheiros de cela, mas também os outros presos. A justa distribuição era garantida com a colaboração dos carcereiros ainda não submetidos aos rigores do golpe.

A vontade de Paulo era permanecer no Brasil, mas as circunstâncias não ajudavam. Desde que fora solto pela última vez, estava obrigado a comparecer regularmente a instâncias do Exército para registrar suas atividades. Em um desses encontros, ele seria convocado para um novo inquérito, desta vez no Rio de Janeiro. A essa altura, Elza já alentava a possibilidade de sair do país para preservar a integridade física e mental do marido — e da família.

Exílio na Bolívia

Quando chegou no Rio, atendendo a uma nova intimação militar, Paulo se rendeu ao apelo feito por vários de seus amigos, entre eles o professor de literatura e líder católico Alceu Amoroso Lima, conhecido também como Tristão de Ataíde, e buscou exílio na embaixada da Bolívia. Antes disso, tentara sem sucesso a representação diplomática do Chile, que recusara seu pedido. Muitos colegas também tentaram encontrar formas de acolhê-lo no exterior, caso de Ivan Illich, educador austríaco radicado no México, que conhecera Paulo em uma visita ao Recife. Mas nada havia dado certo até então.

Enquanto esperava pela autorização para viajar a La Paz, Paulo foi informado de que um representante do Ministério da Educação da Bolívia, que estava no Rio para um congresso de educadores latino-americanos, gostaria de se reunir com ele na embaixada. O colega boliviano propôs que Paulo trabalhasse em seu país como assessor de educação, em particular no ensino de adultos. O convite foi aceito na hora.

Em 28 de setembro, Ibiapina Lima expediu um mandado de prisão para Paulo Freire, baseado nos seguintes argumentos: o educador estaria implicado em subversão nos meios intelectuais e de alfabetização; seu método não tinha qualquer originalidade e a velocidade era inferior a de outros modelos; a experiência de Angicos era por si só um atestado de subversão na medida em que mais politizava do que alfabetizava; seria um mistificador, suposto criador de um método e sem pejo de negar que desconhece tudo o que há a respeito; seria um aliciador sistemático do marxismo; refugiou-se em embaixada estrangeira depois de viajar para o Rio de Janeiro para atender a um inquérito, utilizando passagens compradas pelo governo.

Enquanto a viagem ao exterior não se arranjava, Elza e os filhos, por segurança, passaram a viver inicialmente na casa de Zé de Melo, seu irmão. Depois se mudaram de Recife para a casa de Stela, irmã de Paulo, em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, para poderem visitá-lo com maior frequência. Nesse período, também esteve na embaixada o advogado Odilon Ribeiro Coutinho, seu colega e amigo dos tempos em que frequentaram juntos a Faculdade de Direito. Além de um pacote de livros, Odilon entregou a ele alguns dólares para serem usados em sua chegada à Bolívia, dada a sua dificuldade para acessar recursos financeiros. Parte do dinheiro ele daria a Elza para ajudar nas despesas da família. Sem passaporte, porque nunca havia deixado o país, Paulo embarcou para La Paz apenas com sua carteira de identidade, enfiada por Elza em seu bolso no último instante.

Em 18 de outubro, alguns dias após Paulo ter partido para o exílio, Ibiapina Lima divulgou o relatório final do inquérito sobre o educador, no qual o acusava de ser “um dos maiores responsáveis pela subversão imediata dos menos favorecidos. Sua atuação no campo da alfabetização de adultos nada mais é que uma extraordinária tarefa marxista de politização dos mesmos”. Para Ibiapina Lima, Paulo não tinha criado método algum e sua fama viria da propaganda feita por agentes do Partido Comunista da União Soviética. “É um criptocomunista encapuçado sob a forma de alfabetizador”, acusava. Para o militar,

Paulo era um fugitivo: "Recebeu um chamado para depor no Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, e ali chegando fugiu sem considerar que a Nação forneceu passagem de avião, confiando que um dos seus intelectuais não seria um relapso e um fujão. Após viajar, […] asilou-se na embaixada da Bolívia, negando-se a depor e caracterizando, desta forma, toda a sua culpabilidade criminosa de que era um dos chefes. Assim, confirmou as acusações que pesavam sobre ele: assumiu por conta própria toda a responsabilidade por ter fugido. Quem não teme não se esconde".

Educador Paulo Freire.ARQUIVO NACIONAL

SÉRGIO HADDAD

22 OUT 2019 - 19:36 BRT

MAIS INFORMAÇÕES


Entrevista com Emília Viotti da Costa

Emília Viotti da Costa Para historiadora, Brasil enfrenta o paradoxo de ser um país que reconhece o papel do escravo na construção da socied...